Chuva em Wuppertal
Queridos amigos em Porto Alegre,
A vida tem seus maus momentos e eu gostaria de ter notícias boas para contar, mas no momento está tudo bastante triste…
Os bailarinos aqui de Wuppertal estão arrasados com a noticia da repentina morte de Pina Bausch, no dia 30 de junho. Como ex-membro de sua companhia eu estou muito feliz de ter participado de sua maravilhosa jornada na dança e de ter me encontrado entre as pessoas que se tornaram sua família.
O texto a seguir é o resultado de uma entrevista feita com Dominique Mercy, no dia 7 de junho. No dia 12 de junho o destaque na cena da dança ocorreu em Wuppertal, a estréia da nova peça de Pina Bausch. Eu me encontrei com Dominique Mercy alguns dias antes para saber como o trabalho estava indo.
Dominique é o homem que está há mais tempo na companhia. Ele juntou-se a Pina há mais de 30 anos atrás, quando a companhia ainda estava sendo formada em Wuppertal. Interpretou a maioria dos principais papéis de suas peças e foi talvez, o bailarino mais próximo e amado por Pina. Devido às suas surpreendentes qualidades e sua presença cênica marcante, ele continua a ser uma grande inspiração para outros bailarinos jovens e mais velhos (inclusive eu!). Sempre admirei seu movimento, sua liberdade e as idéias únicas que ele apresenta, em cada nova peça.
Este novo projeto tem sido uma co-produção com Chile. A Companhia passou três semanas lá, no início do ano, para reunir informação e inspiração, visitando norte, sul e as ilhas; “experienciando” os diferentes tipos de paisagem que existe naquele país. Nos últimos dez dias, os ensaios foram realizados em um belo estúdio pertencente a Joan Turner, que há muito tempo fundou o Balé Nacional do Chile. Dominique já tinha visitado Chile nos anos 80 com a Companhia de Pina Bausch e notou então que, como agora, os eventos de 73 estavam presentes de diferentes maneiras. Só que agora há mais vida e energia do que antes. A natureza, sendo tão forte, atingiu-o. Lá existe um sentimento de responsabilidade com o passado e com aquilo que veio antes.
Mas a questão é sempre… como o que você viu, sentiu ou leu pode ser traduzido em uma peça? O trabalho com Pina é sempre uma difícil jornada. Você pode aprender muito, mas há momentos em que você pode ficar para baixo ou perdido antes de levantar-se novamente. Desde o regresso do Chile, a Companhia vem ensaiando no “Lichtburg” um velho cinema em Barman que tem sido utilizado como espaço de ensaios, há anos. As peças são criadas de forma semelhante. Pina faz perguntas aos bailarinos e eles respondem criando movimentos.
O recente sotaque tem estado mais nos movimentos e na dança do que nas cenas teatrais. Ela utiliza um longo período para passar seu próprio movimento para os bailarinos e observa de sua mesa, escrevendo centenas de notas que são recolhidas, ordenadas e selecionadas durante semanas. É um processo penoso que envolve horas de busca, espera e muita paciência dos bailarinos. Eventualmente, quando os fragmentos individuais são recolhidos Pina pede que os bailarinos repitam e construam certos movimentos ou cenas juntos. O material é gradualmente reduzido ao longo do tempo. Nos últimos anos cada bailarino tem tido seu próprio solo dentro do conjunto. No final do processo, a Companhia vai para o palco e a versão final só aparece nos últimos dias. Diversas vezes o cenário que é tão importante no seu trabalho, só aparece em sua forma final no dia anterior ao da primeira apresentação.
Dominique mencionou que Pina tinha a incrível capacidade de transformar as coisas que aparentemente não dariam certo, dando solidez a elas. Mas embora ele sinta que ainda está aprendendo, sempre há momentos durante o processo quando fica chateado ou para baixo. É uma espécie de insegurança que todos os bailarinos atravessam. Talvez ela seja parcialmente resultante da exaustão devido a grande demanda de trabalho. Ele explicou que você não pode invadir muito o espaço de Pina. É ela quem decide. Às vezes os dançarinos se perguntam se ela irá gerenciar outra peça depois de ter feito tantas grandes obras no passado. Mas talvez, no fundo, eles saibam que tudo irá dar certo no final.
Além de dançar com Pina, Dominique é professor na Folkwang High School há 23 anos. Desta forma ele tem transmitido sua experiência como bailarino à uma nova geração e vários desses bailarinos estão atualmente na Companhia de Wuppertal. A escola faz parte do mundo e da história de Pina. Outros professores pertencentes à Companhia são: Malou Airaudo, Anne-Marie Benatti (clássico), Stephan Brinkmann, Lutz Forster e Franko Schmidt. Outro professor de dança moderna é o brasileiro Rodolfo Leoni que se juntou recentemente à escola e trouxe uma contribuição muito bem-vinda devido ao fato de ensinar em um estilo diferente, mais ligado ao Release Technique. Minha conexão com a escola é como coreógrafo por mais de vinte anos.
Foi na escola (na qual estudou igualmente Pina) que Dominique, como outros, tiveram seu primeiro encontro com Pina Bausch. Mais tarde ele descobriu os ensinamentos de Kurt Jooss, fundador da escola e dos professores Hans Züllig e Jean Cebron e sentiu como bailarino que havia uma espécie de elo instintivo entre ele e Pina. Dominique contou que na primeira temporada em Wuppertal, Pina convidou Kurt Jooss para montar sua coreografia “Green Table”. Ele teve então a chance de conhecer e trabalhar com o coreógrafo em pessoa e lembra que Kurt Joss era uma pessoa muito gentil. Ficou claro para Dominique que Pina havia se inspirado naqueles ótimos professores para desenvolver seu trabalho, criando um caminho próprio ao longo dos anos. Então, quando perguntei-lhe se há um nome ou um estilo de classe no que ele ensina, a resposta foi não. Para ele, é simplesmente a continuação de uma linha de trabalho que já havia sido aberta.
Sinto falta de vocês, bailarinos… Seria ótimo se um dia Dominique pudesse ministrar classes em Porto Alegre!!!
Com amor,
Mark



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