OLHANDO PORTO ALEGRE DE DENTRO PARA FORA
Em números, uma cidade grande da América do Sul: com 1,4 milhão de habitantes e uns 4 milhões na região metropolitana, Porto Alegre figura em qualquer mapa do continente, seja ele de que natureza for, demográrica, econômica, política, social e mesmo artística. É a capital da província mais ao sul do Brasil, e só isso já da o que pensar: sentimos mais frio que a esmagadora maioria dos nossos patrícios e estamos perto da única fronteira viva do Brasil ao longo de séculos — antes da Independência, éramos a ponta extrema do Império Português, cara a cara com o Império Espanhol aqui na região; depois dela, passamos a ser o limite entre Brasil e Argentina, os dois maiores países do subcontinente, com o Uruguai no meio. Enquanto o Brasil é genericamente tropical (ou pantaneiro, ou amazônico), nós vivemos uma paisagem particular: serras frias, planalto ou, mais caracteristicamente, o pampa, com sua bela linha de coxilhas a se perder no horizonte.
Porto Alegre é a cidade mais desenvolvida dessa ponta do país. Nunca foi centro do Brasil, país que teve cinco sucessivas cidades poderosas em sua história, Salvador na Bahia, Ouro Preto em Minas Gerais, o Rio de Janeiro, São Paulo e agora Brasília, mas já foi centro político de uma guerra separatista, que durou dez anos, e é palco de embates políticos há pelo menos duzentos anos. Não é pouca coisa.
E nem falamos de que Porto Alegre é também uma cidade multicultural, como quase toda cidade brasileira, mas com algumas peculiaridades: nos formaram os portugueses e espanhóis, os africanos de várias regiões, os índios que não foram mortos ou expulsos, e muitos alemães, vários italianos, e em menor escala poloneses, judeus, árabes e uma pequena legião de outras gentes.
Isso tudo, cidade grande brasileira + fronteira + frio + guerra, deixou de herança essa nossa cara: somos uma gente que se parece com, mas se diferencia dos brasileiros médios — somos menos alegres, mais combativos, menos tropicais, mais reticentes, menos afeitos à efusão, mais solitários. E gostamos de nos pensar como uma gente especial. (No mundo da publicidade, Porto Alegre é uma das duas cidades mais escolhidas para testar novos produtos — a outra é Curitiba —, justamente porque somos muito exigentes e não nos deixamos encantar por novidades, quer dizer, somos conservadores.)
Tem indústria e tem comércio importante girando em Porto Alegre, mas não é isso que marca sua existência. Talvez seja exatamente o campo da vida cultural que nos singulariza. Pela proximidade com países de outra língua (tão parecida com a nossa, mas suficientemente diversa), nosso sotaque e nosso vocabulário são logo percebidos pelos demais brasileiros; pela história guerreira, temos apreço pelo confronto e vivemos operando conforme uma visão bastante maniqueísta, ou maragato ou chimango, ou gremista ou colorado; pela tensão entre nosso valor histórico e nossa posição periférica em relação aos grandes centros de decisão do país, particularmente à antiga capital, o Rio de Janeiro, e à verdadeira capital do país, São Paulo, temos um enorme problema de auto-estima, que nos leva a pensar às vezes que somos os mais interessantes indivíduos do planeta, e noutras vezes que somos as pessoas menos relevantes da galáxia; pela distância geográfica dos centros de decisão no Brasil (e fora), por outro lado, acabamos por criar arte, ciência e cultura por aqui mesmo, e por essa razão temos equipamentos artísticos e acadêmicos muito bons; pela mesma distância, porém, acabamos presenciando a diáspora de muitos talentos, em várias especialidades, que não encontram aqui as melhores condições para se desenvolverem.
Vendo por outro ângulo: Porto Alegre fica a meio caminho (em vários sentidos da palavra “caminho”) entre o centro nervoso do Brasil (o Rio no passado, São Paulo hoje) e o centro nervoso do Prata (Buenos Aires, mas também a antiga Montevidéu). Ao longo de seus mais ou menos 240 anos, Porto Alegre ficou prestando atenção ao que ocorria nesses dois grandes polos da civilização na América do Sul, medindo-se com eles, sabendo de sua posição secundária. Porto Alegre é realmente “meio”: meio brasileira e meio platina; meio quente e meio fria; meio metropolitana mas meio provinciana; meio sofisticada e meio simplória; meio progressista mas meio conservadora; meio louca e meio careta. O risco é ficar para sempre sem entender essa posição.
Complexos, nós? Pois é. Ainda está longe o dia em que saberemos extrair dessas misturas e tensões o melhor suco, para a arte ou para qualquer outra atividade humana relevante. Mas estamos indo nessa direção, é o que diz o meu coração, que, como aquele grande artista nada porto-alegrense chamado Caetano Veloso, não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer.
Luís Augusto Fischer



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